cabinet de curiosités

 

cabinet de curiosités

O meu universo é o dos “cabinets de curiosités”, sempre foi e sempre o disse mas nunca o tinha efectivado assim num conjunto (não exaustivo nem fechado) em vitrines e outros dispositivos.

Claro que se se vir tudo junto, o que fiz e vou fazendo e escolhendo, o resultado é um grande conjunto de curiosidades, coisas e temas insólitos, amostras do mundo, tudo com o acaso, a beleza e a ironia da vida e da natureza como denominador comum. São coisas e/ou relações em que “tropeço”, que me espantaram, que vou encontrando por acaso, em que reparei em determinado momento, em notícias de jornal ou ao meu redor.

Há pouco tempo pensei no que faltava para o materializar, fiz peças – uma das últimas foi o corno de unicórnio/dente de narval, objecto que havia sempre nos “cabinets”, assim como os bezoares e a caveira – e quis vê-lo e mostrá-lo já que no atelier ainda não tenho vitrines e está tudo disperso e arrumado, fora de vista.

Comecei por propor sítios mais convencionais de exposição mas não houve respostas e quando me lembrei da “Aula da Esfera”/Salão Nobre da Biblioteca do Hospital de São José tive um sim imediato. Se estou aqui é por causa do meu irmão: há talvez dois anos convidou-me para uma visita em grupo aos hospitais da colina de Santana, guiada por Célia Pilão, e foi quando conheci os edifícios onde agora exponho.

Os “cabinets de curiosités”, antepassados dos museus, não esquecer, demonstram ou exibem uma visão particular* do mundo, às vezes ingénua ou deslumbrada no seu desejo de abarcar tudo, todo o mundo recém-descoberto na época do Novo Mundo, por exemplo, época em que chegavam à Europa animais estranhos como o tatu, todo o exótico. São colecções de coisas tão díspares que são um mundo, o de quem o fez**, mas que contribuem para a aquisição de conhecimento, sobretudo quando exaustivos e à séria***.

E então, tendo sido este edifício um colégio e a “Aula da Esfera” uma sala de aula com lições de balística, astronomia, geometria, entre outras, em painéis de azulejos lindíssimos e únicos no mundo nas paredes, não seria assim tão estranho afinal expor isto aqui, fazia sentido. Por questões logísticas e de segurança, a exposição vai do átrio à sala da biblioteca mas não está longe da dita aula.

BAP, 9.2014

 

* de “privado” e não o anglicismo para “estranho”

** por ter objectos naturais misturados com objectos mágicos, artísticos, outros produto da alquimia, uma miscelânia que mais tarde foi sistematizada e organizada universalmente, dando origem aos museus de história natural com as suas diferentes secções e aos museus de belas artes

*** em contraste com o meu que tem coisas “falsas”, peças feitas por mim, possibilidades

(fot.s da exposição: Rosa Reis)